Entre o silêncio e a fresta

Corpo-território, lesbianidade e desobediência epistêmica

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5281/zenodo.21138230

Palavras-chave:

Corpo-território, Lesbianidade, Ancestralidade, Desobediência Epistêmica, Cosmopercepção, Epistemologias do Sul

Resumo

Este artigo analisa processos de subjetivação atravessados pela ancestralidade, pela colonialidade e pela experiência da lesbianidade, tomando o corpo-território como eixo de reflexão. A partir de uma abordagem autoetnográfica de caráter crítico e decolonial, articula a vivência pessoal e o diálogo teórico para compreender como apagamentos históricos, silenciamentos e normatividades coloniais participam da produção de formas de existir. A discussão mobiliza contribuições de Frantz Fanon, Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí, María Lugones, Achille Mbembe, Eduardo Oliveira Miranda, Silvia Rivera Cusicanqui, Makota Valdina, Muniz Sodré e outros autores comprometidos com perspectivas decoloniais e epistemologias do Sul. Ao abordar a ancestralidade, a colonialidade do silêncio, a cosmopercepção e a descoberta da lesbianidade, o texto sustenta que a reescrita de si pode constituir uma prática de desobediência epistêmica, capaz de tensionar formas hegemônicas de conhecimento e produzir outros modos de narrar a experiência. Conclui-se que o corpo-território não é apenas lugar de inscrição das violências coloniais, mas também espaço de reexistência, elaboração de pertencimento e criação de possibilidades de existência.

Biografia do Autor

Stela Cláudia Barboza da Silva, Instituto Parentes

É psicóloga clínica (CRP 06/116869), lésbica, neta de indígenas Puris e bisneta de pessoas escravizadas. Graduada em Psicologia pela Universidade Braz Cubas, com formação na abordagem histórico-cultural, é pós-graduanda em Psicologia da Descolonização pelo Instituto Parentes. Atua com escuta clínica voltada à população LGBTQIA+, com foco em mulheres que buscam narrar-se fora dos moldes coloniais e patriarcais. Sua prática se sustenta na ancestralidade, na espiritualidade e no corpo como território de saber.

Natália Kleinsorgen Bernardo Borges

É jornalista, designer e pesquisadora lesbofeminista. Doutora em Mídia e Cotidiano pela Universidade Federal Fluminense (PPGMC/UFF), desenvolve pesquisas sobre mídia e violência, representações midiáticas das lesbianidades, lesbofobia, análise do discurso feminista e jornalismo. É fundadora das coletivas Comunica, Sapatão e Oitava Feminista e atua na formação, produção de conhecimento e comunicação estratégica para movimentos sociais, com foco na visibilização lésbica, na incidência política e no fortalecimento da organização coletiva.

Referências

ANZALDÚA, Gloria. Borderlands/La Frontera: the new mestiza. 2. ed. San Francisco: Aunt Lute Books, 1987.

CUSICANQUI, Silvia Rivera. Un mundo ch’ixi es posible: ensayos desde un presente en crisis. Buenos Aires: Tinta Limón, 2020.

DUSSEL, Enrique. Ética da libertação na era da globalização e da exclusão. 2. ed. São Paulo: Vozes, 2000.

FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Tradução de Renato da Silveira. 2. ed. Salvador: EDUFBA, 2008.

KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.

LUGONES, María. Colonialidade e gênero. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 16, n. 2, p. 511–518, 2008. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/9880. Acesso em: 27 jul. 2025.

MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra. Trad. de Renato da Silveira. São Paulo: N-1 Edições, 2017.

MBEMBE, Achille. Necropolítica. Tradução de Marta Lança. São Paulo: N-1 Edições, 2018. Disponível em: https://www.procomum.org/wp-content/uploads/2019/04/necropolitica.pdf. Acesso em: 05 jul. 2025.

MIGNOLO, Walter D. Epistemologia do Sul e a opção decolonial. In: SANTOS, Boaventura de Sousa; MENESES, Maria Paula (org.). Epistemologias do Sul. São Paulo: Cortez, 2011. p. 81–117.

MIRANDA, Eduardo Oliveira. Corpo-território & educação de(s)colonial. Salvador: EDUFBA, 2020.

MIRANDA, Eduardo Oliveira. Epistemologias dos Odus e decolonialidade lógica colonizadora afro-brasileira: Exu, saber e encruzilhada. Revista Estudos Libertários, Rio de Janeiro, v. 1, n. 6, p. 60–76, 2022. ANZALDÚA, Gloria. Borderlands/La Frontera: the new mestiza. 2. ed. San Francisco: Aunt Lute Books, 1987.

OYĚWÙMÍ, Oyèrónkẹ́. A invenção das mulheres: construindo um sentido africano para os discursos ocidentais de gênero. Tradução de Wanderson Flor do Nascimento. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2021.

SANTOS, Boaventura de Sousa. Epistemologias do Sul. São Paulo: Cortez, 2010.

SODRÉ, Muniz. Pensar Nagô. Petrópolis: Vozes, 2017.

VALDINA, Makota. Ancestralidade. 2017. (0min00s–0min59s). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=N9l4diwjRbU. Acesso em: 05 jul. 2025.

VALDINA, Makota. Bença: entrevista com Makota Valdina. 2010. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=P0ziJx0KWRE. Acesso em: 05 jul. 2025.

VALDINA, Makota. Seja mestre de si. 2018. Disponível em: https://www.youtube.com/results?search_query=TPSM_Conexão%7C+Seja+mestre+de+si+-+makota+valdina. Acesso em: 05 jul. 2025.

Downloads

Publicado

07.07.2026

Como Citar

Silva, S. C. B. da, & Borges, N. K. B. (2026). Entre o silêncio e a fresta: Corpo-território, lesbianidade e desobediência epistêmica. Revista Parentada, 1(1), 353–365. https://doi.org/10.5281/zenodo.21138230

Edição

Seção

4 - Clínicas do Conviver: dispositivos de escuta e feituras de sentido